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25 de março de 2013

Por gilberto em: Amor, Felicidade, Psicologia, Sociedade

Quem desdenha quer comprar


bracoO tema desta semana no Programa Light News da rádio Transamérica Light é sobre “ditados populares”. As lendas, os contos, mitos, as metáforas e os ditados populares são narrativas que o senso comum usa para explicar a história, a cultura e também as relações de amor entre as pessoas. Por este motivo podemos traduzir o mundo social e afetivo, tanto pela Ciência, quanto pela Arte. A Psicanálise e a Antropologia, para citar dois exemplos, nunca se distanciaram da dimensão artística para compreender o mundo. Tanto Freud, o fundador da Psicanálise, quanto Lévi Strauss, o fundador da Antropologia Estrutural, ganharam prêmios de literatura ao desvendarem a intimidade do universo humano.
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O verbo desdenhar tem um significado muito especial na nossa língua, pois não é apenas mais um desprezo e tampouco é sinônimo de indiferença. Sua conjugação se arroga de “desprezar com altivez” a quem queremos diminuir. Creio que a expressão “O que vem debaixo não me atinge”, traduz muito apropriadamente o que é um desdém (efeito de desdenhar). O desdenhar requer o charme de uma falsa apatia à pessoa ou ao objeto desdenhado, como por exemplo, “ele é rico, mas infeliz?”. “ Eu sou pobre, mas sou limpinho”. Todas estas expressões populares traduzem a forma defensiva pela qual tentamos nos proteger da inveja ou do “pé na bunda” de quem amamos. Quando se leva um “fora”, alguns sentimentos contraditórios se fundem. Amor e ódio se condensam numa mesma emoção. Ao mesmo tempo em que o “chutado”, como uma bola de futebol, sente a dor do pontapé, também sente a falta deste amor. É neste momento que as defesas psicológicas começam a agir para blindar o sofrimento. Começamos a ver os defeitos de quem nos chutou. Aqueles que antes, eram pequenos defeitos como palitar os dentes, passam agora a serem enormes e odiosos costumes. “Ele sempre foi um grosso sem nenhum requinte”. Os atrasos na hora de buscar a namorada, antes tolerados, agora passam a ser vistos como irresponsabilidades “Aposto que vai ser mandado embora do emprego! Quero ver ainda, ele me pedir dinheiro emprestado”. O desprezo com altivez se enaltece na medida em que desvaloriza e se rebaixa o outro “Ah! Eu não gostava mais daquele cretino”. O falso desabafo da indiferença, “Eu não tô nem aí” é a forma mais eficaz de se negar a falta que este amor nos faz. A conhecida fábula “A raposa e as uvas” chegou até nós pela forte influência greco-romana que sofreu a língua portuguesa. Apesar de reescrita pelo fabulista francês Jean de La Fontaine (1621-1695) , a origem da fábula data de mais de 500 anos a.C. Isto retrata a presença atemporal e universal do inconsciente nas decisões que tomamos para justificar nossos fracassos ou perdas. Diz a história que uma raposa faminta passava por uma viçosa videira quando avistou alguns cachos de uvas maduras. Tenta alcançá-los de toda forma, mas já exausta, desiste das tentativas. Porém, antes de abandonar o pomar olha para as uvas e murmura a si mesma “Na verdade, olhando com mais atenção, percebo agora que as uvas estão todas estragadas, e não maduras como eu imaginei a princípio…” Em Portugal, quando se quer arrumar uma desculpa qualquer para o insucesso, se diz “Ah! Mas estão verdes”.

Possivelmente da fábula de La Fontaine é que vem a expressão “Quem desdenha quer comprar”. Outras formas são usadas na Inglaterra, Estados Unidos, Europa. Enfim, por todas as partes do mundo muda-se apenas a forma, mas a estrutura é a mesma. Freud traduz as narrativas de natureza defensiva, como mecanismos de defesa psicológica. Sempre uma “negação” vem acompanhada de uma “racionalização”. Eu nego um fato que me incomoda e tento dar uma explicação racional sobre o que neguei. Uma forma de auto consolo falsificado. Afinal a realidade cruel da vida é sempre amenizada por pequenas doses de ilusões. Todo aluno que vai mal numa prova, usa uma desculpa para justificar a nota baixa que alcançou. Os dependentes químicos e alcoolistas usam com muita frequência deste dispositivo, quando são internados nas clínicas” Eu estou aqui porque tive um probleminha com a minha saúde” ou então a velha e conhecida história de boteco “aquela empadinha me fez mal”. Maridos ciumentos tentam negar a insegurança ameaçadora dos seus sentimentos, dizendo a suas esposas que elas são feias gordas e burras. Assim se convencem de que não poderiam sentir ciúme de uma mulher tão indesejável. A sala de TV lotada de mulheres é sempre um ótimo laboratório para avaliar a negação e a racionalização feminina. Assim , quando a apresentadora Daniella Cicarelli ri na televisão, com muita frequência as telespectadoras do sofá se olham de soslaios acumpliciantes para dizer “Ui!!! Olhe o tamanho dessa boca. Que horrível!” Quando reprovamos num concurso, tentamos nos convencer de que fomos reprovados e que aquele cargo “não era prá ser”. Utilizamos destes disfarces porque a realidade crua é sempre intolerável. Quando perdemos a quem amávamos, nosso ego se entrincheira num poço de defesas. Arrumamos todas as desculpas possíveis para acreditarmos em alguma coisa que nos console. Seja tentando inventar um erro que não cometemos, seja negando o mal que aquele amor nos fez. Essa negação e racionalização é sempre decisiva nas duas situações. Tanto nos conforta para esquecer a quem amamos, quanto nos estimula a errar mais uma vez atirando-nos nos braços da amada. Somos seres divididos, ambíguos e contraditórios. Vivemos cercados pelo medo e pela esperança. Pela razão e sentimentos. Pela coragem e covardia. Não importa, pois viveríamos melhor se admitíssemos nossas fraquezas e nossos triunfos. Não nos livraremos jamais da altivez do desprezo e tampouco da inveja, do preconceito, bem como da esperança de que eles um dia desapareçam. Mas, talvez trancados num banheiro de rodoviária, assentados no vaso da observação reflexiva, possamos então consolar nossas derrotas. Possamos compreender a profundidade e a insignificância das nossas necessidades fisiológicas e sentimentais, se relermos com mais atenção a máxima dos ditados populares de banheiro. “ Aqui neste lugar solitário onde a vaidade se acaba. Todo fraco faz força, todo valente se caga”.

4 Comentários em “Quem desdenha quer comprar”

  1. Por Jose ribeiro em 25 de março de 2013

    Tenho um amigo no trabalho, gosto muito dele, como um irmão, mas ele as vezes me deixa confuso e chateado. Sou mais caladão, então na maioria das vezes ele vem puxar papo, já reparei que quando estamos sozinhos a conversa flui, mas quando estamos em grupo ele fica me zoando. Outra situação chata é que quando eu vou puxar conversa com ele, ou ele é seco ou me dá patadas. Não quero perder uma amizade, pois o considero muito, mas não sou mulher de bandido.

  2. Por gilberto em 25 de março de 2013

    Caro Visitante!
    Permita-me uma pergunta terapêutica acerca do que diz não ser: “não sou mulher de bandido”.Tem certeza de que não é? Não necessariamente precisa ser uma mulher para ter uma “amor bandido”. Basta ocupar o lugar de tolerância que vem ocupando nesta amizade!

  3. Por rosi em 25 de março de 2013

    muito interessante a materia…adorei, me responde uma coisa q m pertuba a uns anos. Tenho um rolo (caso), e ele fala p todo mundo qdoperguntam, que nao tem nada comigo e q sou maluca, mas nao fica sem m procurar….ele ta m desdenahndo?

  4. Por gilberto em 25 de março de 2013

    Cara Visitante!
    Se o “rolo” que tem é com um homem casado, ou comprometido com outra mulher, não creio que ele esteja apenas lhe fazendo desdenhas. Possivelmente está querendo esconder o “rolo” para que não chegue aos ouvidos de quem ele não quer que saiba!Afinal, isto poderá causar-lhe um “rolo” tremendo.
    Grato pela visita

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